Por André Henrique e Maicon Santos
Jovens fazem teste no Rio Branco de Americana, um dos grandes formadores de atletas do interior paulista
Cada vez mais as sociedades estão fragmentadas e carentes de um sentimento comum que embala todos os cidadãos. Talvez o futebol seja dos poucos momentos em que milhões torcem, sofrem e sorriem em comum. Um movimento folclórico, de massa, que gera alegrias e tristezas. O futebol, sem dúvida, pulsa forte no coração dos brasileiros. Sobretudo dos mais jovens, que sonham se tornar os futuros craques da bola.
Para termos uma idéia, no interior de São Paulo são realizadas 60 peneiras por ano que recebem, em média, 150 meninos, mas apenas 10% são aprovados. Além de peneiras, escolinhas particulares, em parcerias com times profissionais, são os limiares da carreira de um jovem jogador de futebol. No entanto, a caminhada é longa e o estrelato não é para todos e, mesmo quando alcançado, reserva amarguras.
Desde a base, os jogadores passam por dificuldades e a maioria delas é ligada à trajetória social de cada um. Os jogadores, no geral, são de origem social pobre. Por exemplo, o ex-jogador Macedo disse que no começo de sua carreira passou fome, frio e dormiu debaixo de arquibancadas, mas o sonho de ser jogador manteve acesa sua vontade de treinar. Segundo o ex-jogador, o problema maior é quando vem o estrelato. Os jogadores, por não terem se desenvolvido humanamente e por não terem experiência com o mundo dos negócios, ficam a mercê de aproveitadores e prejudicam suas carreiras.
É comum nas peneiras, olheiros buscarem talentos para vender ao exterior. Geralmente, os atletas são vendidos para países de pouca ou nenhuma tradição no futebol. Chegando lá, as promessas aqui feitas não passam de inverdades e os sonhos dos jogadores não ultrapassam a fronteira da quimera. Para o jornalista Roger Willians, os clubes do interior tratam os pequenos atletas como cifrões e, por conta da necessidade de dinheiro, vendem os atletas. Todavia, será que os jogadores têm consciência dos perigos das negociatas do mundo do futebol? O jogador da base do clube Rio Branco de Americana, Eduardo Barros, abandonou a namorada, a família, a casa e veio para o interior tentar ser jogador. O jovem afirmou que não tem oportunidade de fazer outra coisa já que não conseguiu terminar os estudos e nem tem formação profissional. Ou seja, a falta de recursos sociais e de perspectivas na vida profissional certamente tem um papel determinante nas decisões afoitas de garotos que buscam o sucesso no futebol.
Os clubes do interior perderam o vínculo com os atletas. Depois da lei Pelé, os empresários se tornaram personagens centrais nas transações. Os jogadores se tornaram livres para negociar seus futuros profissionais. Há jogadores que tem vários empresários e, muitas vezes, nem os conhecem. O futebol tornou-se uma complexa engrenagem capitalista. Os clubes do interior, por terem vínculos escassos com os jogadores, perderam o poder de revelar talentos e, por isso, raramente conseguem vender futebolistas de qualidade. Na necessidade de dinheiro, os clubes não resistem às propostas de clubes nacionais (maiores) e de equipes do exterior, vendem os jogadores, dos quais, possuem uma cota mínima do passe. Em razão deste contexto, os jogadores são vendidos cedo demais, não aprimoraram a parte física e humana, e se tornam presas fáceis para o mercado nebuloso da bola.
Como proteger os jogadores das investidas de empresários? Até aqui não há nenhum mecanismo claro que regule as negociações de jovens jogadores para o exterior. Na opinião do jornalista Renato Leal é preciso ter regulação política, leis do Estado que coíbam a venda de jogadores menores de idade. O jornalista acredita que os jogadores precisam construir uma trajetória dentro de seus clubes, aprimorarem o aspecto técnico e físico antes de serem negociados. E, mais do que isso, os atletas, desde a base, precisam de um “trabalho pedagógico” que os ajudem a desenvolver valores como a sociabilidade, convivência, e que tenham noção de limites. É comum no futebol, jogadores, mesmo quando conseguem fazer sucesso, como é o caso do jogador do Santos, Neymar, deslumbrarem-se com a fama e acabarem se envolvendo em polêmicas - mesmo sem tê-las provocado. Os jogadores novos, geralmente, são imaturos e, deslumbrados com o sucesso, são vulneráveis a polêmicas indesejáveis que podem ser venais para suas carreiras. É preciso tratar destas questões na formação dos atletas.
A idéia de associar a formação técnica à formação humana parece ser a mais sensata. A maioria dos jogadores não alcança o sucesso desejado: ou são desclassificados nas peneiras ou fazem uma carreira modesta no futebol, daí, quando param, não possuem opções profissionais. Ter a consciência de que é preciso estudar, ter uma opção profissional, é uma coisa que só vem com a maturidade, e este lado deve ser trabalhado na formação dos jogadores. Auxílios pedagógicos, sociais e psicológicos devem fazer parte da formação dos atletas. Jogadores de origem pobre, mesmo quando fazem sucesso, costumam passar por dilemas sombrios: é o caso de Adriano, ex-jogador da Inter de Milão. O centroavante saiu muito cedo do Flamengo e foi para Itália, ganhou milhões, foi chamado de Imperador, jogou uma copa do mundo, e ainda assim caiu nas garras do alcoolismo. Adriano não conseguiu se desvencilhar de seu passado complicado. Por várias vezes, Adriano abandonou os treinos na Itália e foi encontrado nas favelas do Rio de Janeiro cantando e festejando com velhos amigos de infância. O jogador perdeu a chance de jogar uma nova copa. Perdeu dinheiro. Envolveu-se em brigas. Caiu em depressão. O sucesso veio e as dores também. A carga de seu passado pobre, sem estudo, sem renda, de família desestruturada pesou em sua carreira. Adriano não suportou o fardo do sucesso e os problemas de sua infância não deixaram de assombrá-lo. O fato de ele ter saído cedo do futebol brasileiro influenciou em seus desajustes psicológicos. Hoje, ele tenta o recomeço no Roma, da Itália.
Os jovens jogadores querem dinheiro e sucesso. Querem se livrar de um passado, que na maioria dos casos, é pobre e limitado. No entanto, ávidos pelas “delícias” que o dinheiro e a fama proporcionam, esquecem que o mundo da fama também reserva espinhos - e nem todos alcançam o sucesso desejado. É preciso que os jovens entendam - e alguns entendem - que nem tudo na carreira de um jogador são veredas, há espinhos e dificuldades. Na formação dos jogadores, o aspecto humano precisa ser central. No entanto, os clubes precisam recuperar os vínculos com os atletas e o mercado da bola deve ser regulado. O papel do Estado se torna essencial, tanto na regulação das transações quanto na promoção de justiça social, dando renda e educação humana e profissional aos jovens brasileiros.